Tradicional Festa de São Cristóvão de Campo Largo pode acabar após série de multas durante carreata
Transportadores afirmam que foram surpreendidos por autuações durante o evento; segundo relatos, até o caminhão conduzido pelo prefeito foi multado. Secretaria de ordem pública diz que não determinou as autuações e promete analisar os casos
Uma das mais tradicionais celebrações de Campo Largo pode estar ameaçada de desaparecer. A tradicional Festa de São Cristóvão, realizada há mais de 70 anos e que reúne anualmente centenas de caminhões, motoristas, familiares e empresas do setor de transporte, terminou este ano cercada por reclamações e indignação entre empresários e condutores.
Segundo relatos de empresários do ramo de transporte ouvidos pela reportagem, diversos caminhões e veículos que participaram da tradicional carreata teriam sido autuados durante o evento por agentes da fiscalização municipal.
A situação gerou revolta entre os transportadores, principalmente porque, segundo eles, não seria a primeira vez que isso acontece. Alguns empresários afirmam que este é o segundo ano consecutivo em que participantes da festa são surpreendidos com multas durante a carreata.
De acordo com os condutores, um agente da Guarda Municipal teria permanecido nas proximidades da rotatória do Max Atacadista, realizando autuações dos veículos que passavam pelo local.
Entre as infrações relatadas pelos motoristas estão falta do uso do cinto de segurança, direção na contramão, condução perigosa e conversão irregular.
Os transportadores questionam principalmente a quantidade de autuações e a suposta ocorrência de infrações que, segundo eles, não teriam acontecido.
As multas, de acordo com os relatos recebidos pela reportagem, resultaram em uma média de quatro pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) de cada motorista autuado.
A situação teria atingido empresas que participaram da festa com dezenas de veículos. Segundo um dos relatos, uma transportadora que levou mais de 50 caminhões ao evento teria recebido diversas autuações.
Para os empresários, a situação é ainda mais grave porque a Festa de São Cristóvão não é uma carreata comum, mas um evento tradicional que faz parte da história de Campo Largo e movimenta diretamente o setor de transporte da cidade.
Um dos fatos que mais chamou a atenção dos transportadores foi o relato de que nem o caminhão utilizado pelo prefeito durante a carreata teria escapado da fiscalização.
Segundo as informações repassadas à reportagem, o caminhão Scania, pertencente à empresa BEBRAS e conduzido pelo prefeito durante a participação na festa, também teria sido autuado.
O episódio, caso confirmado administrativamente, levanta uma questão inevitável: se até o veículo conduzido pelo próprio prefeito foi multado, qual foi exatamente o critério utilizado para a fiscalização dos demais participantes?
A consequência mais preocupante de toda a situação pode ser o enfraquecimento — ou até mesmo o fim — de uma tradição que atravessa gerações.
Empresários do setor de transporte afirmam que não pretendem mais participar da Festa de São Cristóvão caso a situação continue se repetindo.
Para quem trabalha com transporte, participar do evento significa deslocar caminhões, mobilizar funcionários e famílias e manter viva uma tradição que existe há décadas. A possibilidade de terminar a participação na festa por medo de receber uma série de autuações durante a carreata representa um duro golpe para uma celebração que deveria ser marcada pela confraternização.
É difícil não questionar a atuação do poder público: uma festa que sobrevive há mais de sete décadas pode acabar justamente por falta de diálogo e organização do município?
Procurado pela reportagem, o secretário municipal de Ordem Pública, João Freita, confirmou que houve aplicação de multas, mas afirmou que as autuações não partiram de uma determinação da Secretaria.
Segundo o secretário:
“Realmente houve a aplicação de algumas multas. O prefeito me ligou falando. Não foi uma determinação da secretaria, isso partiu do próprio agente. Vamos solicitar aos que foram notificados que façam recurso e vamos analisar se houve excesso ou não. Já pedi um relatório ao comando e vamos analisar caso a caso.”
A declaração, porém, abre outro questionamento importante.
Se a Secretaria de Ordem não determinou a operação e as autuações partiram de uma iniciativa individual do agente, como uma ação dessa natureza ocorreu durante um evento tradicional, previamente organizado e que reúne centenas de veículos, sem que houvesse uma orientação clara sobre a atuação da fiscalização?
A situação também coloca em discussão o planejamento da Prefeitura de Campo Largo para eventos de grande porte.
A Festa de São Cristóvão acontece há mais de 70 anos. Não se trata, portanto, de uma atividade desconhecida ou inesperada para o município.
A Prefeitura sabe que, durante a festa, centenas de caminhões circulam pelas ruas da cidade em uma carreata tradicional. Justamente por isso, seria razoável esperar que a Secretaria de Segurança e os demais órgãos municipais estabelecessem previamente uma estratégia de organização do trânsito, orientação aos participantes e fiscalização.
O que os transportadores questionam é justamente se houve esse planejamento.
Fiscalizar é obrigação do poder público. Mas transformar uma festa tradicional em uma sequência de autuações também pode ser uma demonstração de falta de diálogo, planejamento e bom senso.
Os empresários não questionam necessariamente a existência da fiscalização de trânsito. O que está em discussão é a forma como ela teria sido realizada e a quantidade de autuações aplicadas durante uma manifestação tradicional do setor.
Se realmente houve infrações, cabe aos motoristas apresentar seus recursos e aos órgãos competentes analisar cada caso.
Mas, se forem confirmados casos de autuações indevidas ou excessivas, surge uma pergunta ainda mais séria: quem será responsabilizado pelos prejuízos causados aos motoristas e empresas?
A própria Secretaria de Segurança reconhece que será necessário analisar caso a caso e verificar se houve excesso.
Até lá, fica uma situação no mínimo contraditória: uma festa criada para homenagear São Cristóvão, tradicionalmente considerado o padroeiro dos motoristas, termina com motoristas reclamando justamente da atuação dos órgãos municipais responsáveis pela segurança e fiscalização.
O episódio pode parecer apenas uma discussão sobre multas, mas suas consequências podem ser muito maiores.
Se os empresários realmente deixarem de participar, a Festa de São Cristóvão poderá perder justamente um dos seus principais elementos: os caminhões e os profissionais do transporte que ajudaram a construir a tradição ao longo de décadas.
A Prefeitura de Campo Largo e a Secretaria de Ordem Pública ainda têm a oportunidade de esclarecer os fatos, analisar as autuações e demonstrar que houve bom senso na condução da fiscalização.
O que não pode acontecer é uma tradição de mais de 70 anos desaparecer por falta de diálogo entre o poder público e aqueles que, ano após ano, colocam seus caminhões nas ruas para manter viva a Festa de São Cristóvão.
Fiscalizar é necessário. Mas preservar uma tradição também deveria ser responsabilidade do poder público.
A reportagem continuará acompanhando o caso e poderá atualizar esta matéria após a conclusão da análise anunciada pela Secretaria de Ordem Pública e a eventual manifestação oficial da Prefeitura de Campo Largo.
Matéria: Marcopolo Pais




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