CAMPO LARGO CELEBRA A DIVERSIDADE E AMPLIA ACOLHIMENTO DE ESTUDANTES MIGRANTES NAS ESCOLAS
Com raízes fincadas por poloneses, italianos e alemães no século 19, município celebra o Dia do Imigrante, reafirmando o compromisso de acolher os novos migrantes com dignidade e respeito cultural nas escolas públicas
Foto : Comunicação PMCL Celebrado nesta quinta-feira, 25 de junho, o Dia do Imigrante reforça um compromisso que a Secretaria Municipal da Educação (SME) de Campo Largo já incorporou ao seu cotidiano: garantir que crianças e jovens migrantes e refugiados sejam recebidos nas escolas públicas municipais com dignidade, respeito e suporte pedagógico adequado.
A data, que homenageia a contribuição histórica dos imigrantes para a formação cultural e social do Brasil, encontra apoio nas ações desenvolvidas pela Coordenação Pedagógica de Língua Estrangeira, vinculada ao Departamento de Ensino da SME. A coordenação é responsável pelo acompanhamento da implementação do ensino de Inglês nas escolas em tempo integral e, de forma crescente, pelo suporte pedagógico e acolhimento dos estudantes migrantes matriculados na rede municipal.
Entre as iniciativas em curso, destaca-se a realização de um mapeamento abrangente dos estudantes migrantes nas escolas municipais, por meio de um levantamento dinâmico, constantemente atualizado pelas equipes diretivas das unidades escolares, que registra o quantitativo de alunos, suas nacionalidades e suas respectivas idades-série. Nos próximos meses, a ação será expandida para incluir também os Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs).
O mapeamento permite que as escolas encaminhem à SME documentos e históricos escolares dos países de origem dos estudantes. A secretaria, então, se responsabiliza pela tradução desses materiais, medida que permite a compreensão dos sistemas educacionais de outros países e, a partir daí, possibilita a construção de um acolhimento pedagógico mais assertivo e personalizado para cada estudante. No futuro, há a pretensão de que os dados educacionais sejam cruzados com informações das redes de saúde e de assistência social do município, ampliando a rede de apoio às famílias migrantes.
Respeito à identidade - Um dos princípios norteadores da abordagem pedagógica adotada pela SME é o entendimento de que a língua portuguesa deve ser ensinada como segunda língua. O objetivo é garantir que a língua materna seja reconhecida como instrumento de afeto, vínculo familiar e identidade cultural. Por isso, sua preservação é tratada como condição inegociável no processo de acolhimento.
Esse posicionamento tem sido reforçado nas formações e capacitações oferecidas a professores, diretores e pedagogos da rede municipal. O objetivo é desenvolver nos profissionais a capacidade de se colocar no lugar do outro, para que o acolhimento ocorra com a sensibilidade e o respeito que a situação exige.
“Reconhecemos a complexidade e a ausência de uma equivalência direta entre os sistemas de ensino de diferentes países”, declara a coordenadora pedagógica de Língua Estrangeira, Eloisa Pissaia. “Isso faz com que o processo de acolhimento precise ser flexível e adaptado às necessidades individuais de cada aluno.”
Nas escolas, as formações promovidas pela SME têm incentivado práticas interculturais, como o uso de placas bilíngues em espaços escolares, a incorporação de hinos de países de origem em atividades culturais e o desenvolvimento de ações pedagógicas que valorizem o conhecimento e as experiências que os estudantes trazem de suas trajetórias de vida. Já na central de vagas, a secretaria busca garantir tradução sempre que possível, eliminando barreiras linguísticas já no primeiro acesso ao sistema educacional.
“Essas ações partem do princípio fundamental de que a migração é um direito humano”, explica Eloisa. “Precisamos ter cuidado com o processo de revitimização, situação em que o migrante é exposto novamente a situações de vulnerabilidade ou discriminação.”
História e cultura que moldaram a cidade - A chegada dos primeiros imigrantes a Campo Largo ocorreu em 1860. Vindos da Europa em meio a um cenário de diversidade, esses grupos foram atraídos por uma intensa propaganda que apresentava o Brasil como terra de prosperidade e oportunidade. A realidade, porém, era bem diferente.
"Eles não tinham outra opção a não ser vir para cá, porque o motivo era necessidade, falta de trabalho, recursos, sejam eles econômicos, religiosos — além da fome e da guerra", explica a diretora de Patrimônio e Espaços Culturais do município, Lindamir Ivanoski.
Antes de se fixarem em Campo Largo, muitos grupos passaram pelo litoral do Paraná, mas, buscando um clima mais próximo ao europeu, escolheram o município como destino definitivo. Ao chegarem, não encontraram campos férteis prontos para o cultivo, mas extensas áreas de mata virgem. Sem desanimar, derrubaram a floresta, prepararam o solo e plantaram, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento econômico da cidade.
Identidade campo-larguense - Entre os grupos que cruzaram o Atlântico rumo ao Brasil estavam portugueses, espanhóis, italianos, poloneses, alemães, russos, franceses, suíços e ingleses. Cada um deles deixou marcas profundas na cultura local.
"O português, o italiano e o polonês eram considerados imigrantes. O português veio como colonizador, um explorador, mas só depois da Independência do Brasil, em 1822, é que ele chegou como imigrante", esclarece Lindamir.
Essa herança está presente em diferentes dimensões da vida urbana: nos traços físicos da população, na arquitetura de casas de madeira no estilo europeu, nas festividades do calendário local, no artesanato, no vocabulário e, especialmente, na culinária. Pratos como o pirogue — tradicional prato polonês — tornaram-se parte do cotidiano da cidade, bem como salames, queijos, polenta, macarronada, frango frito, conservas e risoto. As tradições religiosas também foram preservadas, com igrejas e festas que atravessaram gerações.
Manutenção da memória - Documentar com precisão a história da imigração em Campo Largo não é tarefa simples. A escassez de fontes primárias exige esforço contínuo de pesquisa e preservação.
"Não há fonte histórica; a gente tem que procurar muito", reconhece a diretora, que, ao longo de anos, reuniu documentos capazes de reconstruir parte dessa trajetória.
O trabalho de resgate histórico é fundamental não apenas para preservar a memória, mas também para garantir o reconhecimento cultural, social e econômico das comunidades imigrantes à cidade que ajudaram a construir.
Processo dinâmico - A imigração não é um capítulo encerrado. Segundo o 12º Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), cerca de dois milhões de imigrantes residem atualmente no Brasil, representando 200 nacionalidades diferentes, entre residentes permanentes, temporários, solicitantes de refúgio e refugiados reconhecidos.
O contexto histórico que viabilizou esse fluxo remonta ao início do século 19, quando Dom João VI, ao decretar a Abertura dos Portos, permitiu que estrangeiros possuíssem terras em território brasileiro. A medida abriu caminho para sucessivas ondas migratórias que seguem moldando o país até hoje.
O Dia do Imigrante é, portanto, mais do que uma data comemorativa: é um convite à reflexão sobre a construção coletiva de uma sociedade plural, em que acolhimento, diversidade e identidade caminham juntos.




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