CRM-PR pede providências à Câmara de Campo Largo após denúncia contra vereador por suposta intimidação em UPA
Correspondência oficial do Conselho Regional de Medicina será apresentada em plenário nesta segunda-feira e aponta possível abuso de poder, constrangimento a médica plantonista e desrespeito aos protocolos do SUS
A sessão desta segunda-feira da Câmara Municipal de Campo Largo deve ser marcada pela apresentação da Correspondência nº 1 de 2026, encaminhada pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Paraná, documento que traz graves apontamentos envolvendo uma denúncia contra o vereador Valdemir Inocêncio da Rosa, conhecido como Tomazina, por suposta intimidação a profissionais da saúde durante um atendimento na UPA Dr. Attilio Barbosa Junior.
O ofício foi enviado diretamente ao presidente da Câmara Municipal, Alexandre Marcel Kuster Guimarães, e assinado pelo 1º secretário do CRM-PR, Fernando Fabiano Castellano Junior. No documento, o Conselho Regional de Medicina afirma ter recebido denúncia relatando uma série de condutas consideradas graves e incompatíveis com o exercício da função pública.
Segundo a denúncia narrada no ofício, o episódio teria ocorrido no dia 16 de abril de 2026, na UPA Dr. Attilio Barbosa Junior, em Campo Largo. Conforme o CRM-PR, o vereador teria intimidado funcionários da unidade e coagido uma médica plantonista a antecipar o atendimento de um familiar, que estava classificado com pulseira amarela — categoria considerada urgente, mas que segue critérios técnicos de prioridade dentro do protocolo de classificação de risco do Sistema Único de Saúde (SUS).
De acordo com o Conselho, o parlamentar teria utilizado o fato de ser vereador para pressionar os profissionais da unidade de saúde, exigindo prioridade no atendimento em relação a outros pacientes que também aguardavam atendimento dentro da mesma classificação de risco. O CRM-PR destaca que esse tipo de interferência compromete diretamente a autonomia técnica da equipe médica e pode gerar desequilíbrio no fluxo de atendimento de urgência e emergência.
O documento ainda relata que o vereador teria realizado filmagens da médica plantonista sem autorização durante o atendimento, situação que, segundo o Conselho, pode envolver questões relacionadas ao sigilo profissional e à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A entidade médica também afirma que, após o acionamento da Guarda Municipal, teriam ocorrido agressões verbais contra a profissional de saúde.
O caso, conforme informado no ofício, resultou no boletim de ocorrência nº 2026/482167.
Na correspondência oficial, o CRM-PR utiliza termos duros ao tratar da situação e afirma que os fatos narrados podem configurar, “em tese”, represália, conduta antiética, abuso de poder político e desrespeito público aos profissionais da saúde. O Conselho ressalta ainda que a usurpação de função administrativa e atitudes incompatíveis com o decoro parlamentar representam afronta às responsabilidades inerentes ao cargo de vereador.
Outro ponto enfatizado pelo documento é o impacto que situações dessa natureza podem causar dentro das unidades de saúde. O CRM-PR alerta que episódios envolvendo pressão política, tumultos e exposição pública de profissionais acabam incentivando um ambiente de hostilidade contra médicos, enfermeiros e demais trabalhadores da saúde.
Segundo o Conselho, atitudes dessa natureza “insuflam a população contra os profissionais da saúde”, criando um cenário de desconfiança entre usuários do sistema público e equipes médicas, o que pode desencadear casos de violência verbal e até física dentro de hospitais e UPAs.
O CRM-PR também destaca que já precisou atuar em ocorrências semelhantes registradas em outros municípios do Paraná e que, após episódios desse tipo, houve aumento de reclamações e atos de violência contra profissionais da área médica.
Diante da gravidade da denúncia, o Conselho Regional de Medicina solicitou oficialmente que a Câmara Municipal informe, no prazo de dez dias, quais providências e medidas serão adotadas em relação aos fatos apontados no documento.
Apesar do tom firme do ofício, o CRM-PR afirma que permanece à disposição para colaborar com iniciativas que promovam melhorias no sistema de saúde pública de Campo Largo e reforça a necessidade de construção de uma relação baseada no respeito entre parlamentares, médicos e demais profissionais da saúde.
A apresentação da correspondência em plenário deve gerar forte repercussão política no Legislativo campo-larguense, principalmente diante do debate sobre os limites da atuação parlamentar dentro de unidades públicas de saúde e da proteção aos profissionais que atuam na linha de frente do atendimento à população.
Até o momento, não houve posicionamento público oficial do vereador citado em relação às denúncias apresentadas pelo CRM-PR.
Matéria: Marcopolo Pais




COMENTÁRIOS