Câmara fragilizada e falta de fiscalização: críticas apontam alinhamento excessivo entre Legislativo e Executivo em Campo Largo
Com apenas um vereador de oposição entre os 15 parlamentares, denúncias levantam questionamentos sobre asfaltamento seletivo, falhas no ESTAR, problemas na saúde pública, quedas de energia e suposta perseguição política dentro da Câmara Municipal.
O cenário político de Campo Largo volta ao centro do debate público diante de críticas relacionadas à atuação da Câmara Municipal. Atualmente composta por 15 vereadores, a Casa de Leis conta, segundo apontamentos feitos por moradores e lideranças locais, com apenas um parlamentar exercendo papel de oposição ao Executivo. A configuração tem gerado questionamentos sobre a efetividade da principal função do Legislativo: fiscalizar os atos do prefeito e da administração municipal.
A ausência de um contraponto mais robusto dentro da Câmara estaria refletindo, na avaliação da população, em uma cidade com fiscalização fragilizada. Um dos exemplos citados envolve obras de recapeamento asfáltico realizadas em um bairro onde reside um vereador que, além de morador, possui empreendimentos na região. O bairro teria recebido recapeamento integral, mesmo já contando com pavimentação, enquanto outras localidades seguem com ruas de terra e buracos.
A situação levanta questionamentos sobre possível favorecimento ou priorização política. Embora vereadores tenham prerrogativa de indicar demandas por meio de requerimentos e indicações, a execução das obras é de responsabilidade do Executivo, especialmente da Secretaria de Obras, que deve observar critérios técnicos e prioridades coletivas. Pela legislação brasileira, o vereador não possui poder de execução de obras, mas exerce papel de fiscalização e proposição.
Outro ponto de crítica envolve o sistema de estacionamento rotativo, o ESTAR de Campo Largo. Há relatos de notificações e multas aplicadas em vias que, segundo moradores, não fariam parte da área oficialmente delimitada pelo sistema. Caso confirmada, a situação poderia indicar falhas administrativas ou problemas na sinalização e regulamentação.
Na área da saúde pública, as reclamações também se acumulam. Moradores relatam longas filas, demora no atendimento e estrutura considerada insuficiente para atender à demanda crescente. O tema da saúde, historicamente sensível, volta a ganhar destaque diante das críticas à falta de fiscalização mais incisiva por parte do Legislativo.
As quedas frequentes de energia elétrica em bairros inteiros também têm sido alvo de reclamações. A Companhia Campolarguense de Energia (COCEL), empresa pública vinculada ao município, tem sido apontada por moradores como responsável pelas interrupções recorrentes. Segundo relatos, as quedas ocorrem diversas vezes durante a semana, inclusive em horários diurnos. A empresa, por sua vez, tem atribuído os problemas a COPEL. A população alega que faltaria uma atuação mais rigorosa da Câmara na fiscalização dos serviços prestados e que a empresa estaria se transformando em um cabidão de emprego para acomodar antigos secretários e apadrinhados do executivo.
Também há questionamentos quanto à instalação de radares de velocidade com sinalização considerada inadequada. Moradores alegam que a falta de clareza nas placas indicativas daria margem à interpretação de que o objetivo seria arrecadatório, e não educativo ou preventivo, como determina a legislação de trânsito.
No campo político, as críticas se intensificam quanto ao comportamento de parte dos parlamentares nas redes sociais. Segundo observadores, vereadores alinhados ao Executivo estariam utilizando suas plataformas digitais para divulgar obras já previstas no cronograma municipal, atribuindo a si a autoria das iniciativas. Especialistas em direito público lembram que a função do vereador é legislar e fiscalizar, não executar obras — atribuição exclusiva do Executivo.
Há ainda denúncias de que o único vereador que atua de forma mais crítica estaria sofrendo intimidações e enfrentando processos na Comissão de Ética da própria Câmara. Segundo os relatos, a atuação fiscalizatória estaria sendo interpretada como confronto político, gerando clima de tensão nas sessões plenárias e possíveis perseguições políticas.
Além disso, surgem acusações de que vereadores considerados “parceiros da prefeitura” estariam sendo beneficiados com indicações de cargos e priorização de obras em seus bairros de residência. Caso tais práticas sejam comprovadas, poderiam configurar afronta aos princípios constitucionais da administração pública, especialmente os da impessoalidade e moralidade, previstos no artigo 37 da Constituição Federal.
O debate evidencia um questionamento mais amplo: estaria o Legislativo municipal cumprindo plenamente sua função constitucional de fiscalizar o Executivo? Para parte da população, a percepção é de que o papel de fiscalização teria sido substituído por uma relação de parceria política, enfraquecendo o controle institucional.
Enquanto isso, problemas estruturais como saúde pública deficiente, infraestrutura precária em bairros periféricos, falhas na prestação de serviços públicos e dúvidas sobre critérios de priorização de obras seguem no centro das discussões.
A reportagem permanece aberta para manifestação da Prefeitura de Campo Largo, da Câmara Municipal, da COCEL e dos vereadores citados, a fim de garantir o contraditório e a transparência necessárias ao debate público.
Matéria: Marcopolo Pais




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